​VIRALIZOU

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Nunca, na história do homo sapiens, “que não sapiens, que não sapiens”, ocorreu um fenômeno de tal magnitude. Nem nas guerras tramadas pelos mandatários, que nunca estarão no front da batalha, ocorreu nada igual. Eles, que espetavam percevejos em cima de pedaços do mapa e contabilizavam homens mortos como baixas, nunca viram um inimigo tão invisível, tão insensível, contra o qual não adianta cavar trincheiras.

Os seres insepultos, mortos, derrotados pela ganância da primeira grande “guerra para acabar com todas as guerras”, os esfaimados, os corporalmente deletérios abrigaram o vírus da gripe, que nunca viveu em casulos, nem tréguas. Dizimou a humanidade, desumanamente fragilizada, utilizada como bucha de canhão. Mas, os exploradores de corpos e mentes pagaram também o preço.

Coloque percevejos, hoje, e eles cobrirão os territórios do mapa-múndi, como se fossem uma plantação de lírios. Povos estarão enfiados dentro de casa, amedrontados pelo inimigo que os olhos não veem, nascido da fome, das guerras. E já há tantos mortos, que não há como sepultá-los. O inimigo está à espreita. Insepultos, alimentam o inimigo que não conhece casulo, nem trincheiras.

O vírus imperativo afasta ainda mais pessoas desumanizadas pela solidão. A Inglaterra, há tempos, criou o ministério da solidão, dos trancafiados, dos que perderão a guerra para a ilusão. Não abrace. Não beije. Não cumprimente. Fique a dois metros de distância uns dos outros. Desinfete-se ao voltar da rua. Não saia de casa. Não... e ... não... e...não. Entregue-se ao mundo do vírus virtual, o vírus real vem espalhando o mal.

D... I.. S... T... Â... C... I... A...

E os distantes, o que farão? Desobedeciam à regra. Agora a obedecerão? Todos, entrincheirados na “Balsa da Medusa”, dar-se-ão as mãos? A realidade deglutiu a ficção. Nunca imaginei que minhas “retinas tão fadigadas” sobreviveriam para ver isso: homens mascarados, entubados, estupefatos, esgotando as gôndolas dos mercados, acreditando piamente na televisão, no Facebook, no Watsapp, no Instagram, obedecendo, cada vez mais cegos, às ordens do grande irmão.

Curiosamente, o vírus que afasta é o mesmo que aproxima. Nunca os negociantes da vida dos outros perceberam que teriam agora que negociar também as suas. o álcool, que os mata, é agora o que os salva. Agora terão tempo suficiente para lamber suas crias, educar os seus rebentos. Saberão como fazê-lo? O dinheiro não manda mais tanto na sua direção. É o vírus que delimita o sim e o não. Teriam se esquecido de como é amar no lugar restrito da casa: em ritos, sem reuniões? Teriam esquecido de que “é preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã”? E os rebentos agradecem ao vírus. Finalmente, não receberão apenas ensino, e sim educação.

Muitas empresas falirão, muitas pessoas ficarão sem seus empregos, muitos lugares ficarão vazios, porém a crise da nação virou a crise sem perdão. Todos destruímos nosso mundo, não há inocentes, os enclausurados nada fizeram, conscientes nada fazem, os exploradores nada farão.

Reconstruir e reconstruir-se exige aproximação entre os inimigos, os indiferentes. Solidariedade, sem disfarce, não a hipócrita para ser descontada no imposto de renda.

Você rirá, virulento leitor, descrendo da minha visão romântica: uma leva de capitalistas ganhou dinheiro com o despencar das bolsas de valores e a disparada do dólar. Sei disso, como sei também que o mundo já acabou há muito, só se esqueceram de contar para você e você fez de tudo para não retirar a venda. Você já é um zumbi faz tempo, zumbi com GPS, agora com máscara guiado pelo grande irmão.

Sente-se e pense: As sextas-feiras chegam cada vez mais rápido. Isso interessa a você? Você está envelhecendo rápido. Então, interessa a quem essa cega dedicação? “O tempo passou na janela, só Carolina não viu”. A pesca esportiva machuca o peixe, mesmo que o joguem de volta no rio. Com um chip acoplado, poderá ser monitorado. O vírus destruiu essa lógica Aristotélica e o mundo sensível de Platão.

O avesso do vírus

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Surgiu o primeiro vírus seletivo na contramão da história. Há 100 anos, praticamente, a gripe espanhola enfiou milhares de pessoas pobres debaixo de sete palmos de terra. O corona é o primeiro vírus chique, ataca os ricos, que viajam pelo universo em aviões e cruzeiros marítimos. Pobre viaja de busão. Pega gripe. Já se sabia da existência do vírus muito antes do carnaval. A massa de turistas estrangeiros, chineses, italianos etc. etc. pelo jeito, não trazia na bagagem o tal corona, que aqui é nome de chuveiro. Chuveiro de raiz italiaa. Que perigo! Mas, se os turistas não viessem, haveria um caos econômico. Então, que vírus, que nada. Também!!! Não era preocupante. O Brasil é um país pobre, ele só ataca os ricos. Na América Latrina, pelo que se sabe, chegou atrasado e, em alguns países, nem chegou. A Europa ficou com todos para ela. Capitalizou o vírus. Socializou a confusão de informações. Só falta o movimento, SOMOS TODOS CORONA.

Os governos tomaram providências rápidas para enjaular o tal corona, nome de batalha italiana. Que perigo! Se o fizessem com tantas outras doenças, haveria uma praga de pobres zanzando por aí, querendo comer e beber. Seria a Guerra Mundial Z (de zumbis, sem Brad Pitt, que é rico), uma perigo para os catastrofistas de plantão. Será que, se o corona fosse uma doença de pobretões, haveria tanto alarde? Muita gente morre nas filas do SUS com doenças muito menos graves e ninguém faz nada. Gente pobre morre em pé de página. O Tom Hanks ri contaminado na primeira do Times. Ele não morreu em um naufrágio sem navio. O Náufrago sem nau. O corona dele é a coroa solar.

Você, desesperado leitor, vai me matar, xingar, porém não tem como contestar: a dengue e a febre amarela matam muito mais. Mas, são doenças de pobres. Esse vírus, de baixa letalidade, não justifica tamanha queda das bolsas de valores e a explosão do dólar, a não ser que especuladores estejam ficando biliardários à custa dele e subornando até as mães das mães?

Sério. Estamos vivendo uma crise econômica de proporções tão gigantescas, quanto a de 1929. A China sustentou o capitalismo durante, pelo menos, três décadas, agora a máquina emperrou. Os ricos aproveitaram a deixa e enfiaram, no meio do caos, a guerra do petróleo. Ela anda fazendo estragos monumentais disfarçada de corona. Trump está voltado para ela, de tal forma, que, mesmo tendo reuniões com um brasileiro contaminado, desprezou o vírus. Vírus brasileiro não pega em americano. É um vírus terceiro-mundista.

Existe uma máxima entre os economistas: “Enquanto uns choram, outros vendem lenços”. O perigo é a doença atingir os pobres e, como sempre acontece, são eles que levam a doença para a casa dos ricos. Então, temos que impedi-la, custe o que custar. A velha máxima: “Quer acabar com a fome, então mate todo mundo que está com fome”. O caos provocado pela gripe espanhola nos ensinou muita coisa: investir em higiene e em um sistema de saúde eficiente é crucial para destruir pandemias. Somos péssimos alunos. O sistema de saúde é um dos maiores ralos por onde escorre a corrupção no Brasil.

Sério. Muita coisa sobre o capitalismo, a pandemia confirmou: muito lenço está sendo vendido. A economia gira, sem uma guerra com armas letais. Guerras são muito caras; gaz Sarin, muito mais. Fabricantes de álcool gel, gêneros alimentícios e papel higiênico não podem reclamar. A inflação vai explodir, a falta de alimentos também. Os hipermercados vão estufar de tanto ganhar dinheiro. Quando enterrarmos o vírus, quem estava em casa, guardando dinheiro, sairá comprando o que ver pela frente. É assim que funciona, quando se quer reconstruir.

Assim sempre foi. Assim sempre será. Sabe quem mais ganha com tudo isso, por incrível que pareça, o meio ambiente que acaba sendo menos destruído pela nossa sonha consumista. Quem perde? Nossos relacionamentos: Distancie-se das outras pessoas (mais?). Expulse o sexo e o beijo do seu cotidiano (vírus maldito). E as baladas, como ficam? Cumprimente com o cotovelo (ridículo, melhor fazer mímica). Abraço? Nem pensar. Amar? Só mascarado. (como em Os Amantes, quadro surrealista de Magritte, em que os amantes se beijam, mas não se veem). O mundo já estava ficando chato, o corona fez ficar mais chato ainda. A desinformação e o alarmismo são piores que a contaminação. Cuidado com o seu dedinho no celular e no teclado do computador. Bem! Agora já era.

Respostas idiotas para perguntas imbecis

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I

- Professor, o senhor faz outra coisa além de dar aulas?
- Claro que faço: às vezes, faço papel de criptonita em filmes do Super-Homem e, às vezes, de teia de aranha nos filmes do Duende Verde. Agora, tenho um sonho: parar de dar aulas, pra fazer papel de parede nas novelas da Rede Globo. Se o Giani faz, por que não eu?

II

- Professor, a gente aprende literatura, pra quê?
- Para diferenciar você dá vaca da sua fazenda. Até agora vocês são iguaizinhos. Recite poemas de Camões para ela, quem sabe ela não dá mais leite? Quem sabe, não arruma um boi zebu pra ela? O perigo é ela se sentir a Capitu do Machado e te beijar na boca, de língua.

III

- Professor, você vai ensinar o quê na aula sobre Barroco?
- Vou ensinar a construir barracos, todo mundo a pular amarelinha e a comer em tachos de barro. Posso também ensinar todo mundo a treinar cuspe a distância.

IV

- Professor, pra que ficar lendo livros?
- Pra aprender a correr cem metros rasos e a dançar rumba no Centro de Tradições Gaúchas.

V

- Professor, por que a gente tem de estudar?
- Pra arrumar um jeito de acabar com a guerra entre os terráqueos e os Klingons ou a fazer papel de Chita, em filme de Tarzan. Talvez, a cantar Babalu em festa de criança.

VI

- Professor, eu preciso estudar pra essa prova?
- Não. O Batman nunca estudou pra virar morcego! O Lula nunca estudou pra andar na esteira. Tartaruga nunca estudou pra andar com a casa nas costas!

VII

- Professor, por que o senhor me deu zero nessa prova? Achei que eu tinha ido bem.
- Ah! Não é nada. Eu estava treinando a usar um compasso para explicar o livro O Cortiço. Você já tinha ido embora, quando expliquei sobre a influência da banana na vida sexual do macaco.

VIII

Professor, o senhor não entendeu nada sobre o que eu quis dizer nessa questão. Por isso riscou a questão com caneta vermelha?

- A questão é que adoro bolinhas de sabão e tarado por pintinhas vermelhas em quem contraiu sarampo. Além do mais, não sei nada sobre a filosofia de Confuso. O homem também pode ser a hemorroida do homem. Certo? Ou o enfarto do miocárdio. Certo? Ou o genuflexório da igreja. Certo? Ou até mesmo aquela bola idiota que desce na Time Square no ano novo americano

​"TOMAR PAU" NO VESTIBULAR CONTAMINA A TODOS

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(Prof.: Luiz Cláudio Jubilato - diretor geral do Criar Redação)

Ainda no bercinho, você se deleita com a voz de travesseiro da mamãe. Ela solfeja uma cançoneta, que algum gago sádico anônimo criou: “Atirei o pau no gato, tô, tô/ mas o gato, tô, tô, não morreu...rreu..rreu. / Dona Chica...ca...ca... admirou-se...se.../ por que foi que o gato não morreu”...

Começa aí a sua saga com a palavra Pau: Pênis. Cacete. Chifre. Corno. Paulada. Pancada. Porrada. VESTIBULAR.

Como pretendo falar sobre o tal vestibular, vou me concentrar nos significados menos nobres da palavra PAU, até porque não há nada de nobre em “tomar pau”.

Pau de dar em doido.
Não deu certo, deu pau.
Você é mesmo um cara de pau.
Você só sabe meter o pau nos outros.
Se eu levar mais drible, dou um pau nesse cara.
Primeiro, eu converso, se não der, vou para o pau.
Pau, que nasce torto, morre torto.
Escreveu, não leu, o pau comeu.
Pau que dá em Chico dá em Francisco.

Nossa sociedade é medida pelo tamanho do pau: Pau grande (viril, macho, garanhão, reprodutor, vencedor, competente, decidido: Aquele que põe o pau na mesa). Pau pequeno (ridículo, inofensivo, desprezado, inferiorizado, humilhado: Aquele que não tem coragem de por o pau pra fora).
Imagine o quanto a expressão “Tomar pau no vestibular” está tatuada, adesivada, carimbada no inconsciente coletivo? A pergunta devastadora, supostamente consternada de alguém raivoso e/ou piedoso para quem não passou, foi reprovado, tomou na cabeça, se deu mal é “de novo?!”.
Repetida à exaustão, ano após ano, “tomar pau no vestibular” apavora qualquer adolescente, entre 18 e 22, que passa por uma fase de conflitos tanto psicológicos, quanto físicos, hormonais, sentimentais etc. Pior: há escolas que, de forma irresponsável, começam a falar sobre vestibular, já no 5º ano do ensino fundamental: “Se você continuar assim, nunca passará no vestibular, Joãozinho”.
A expressão estampada na cara do “derrotado” expõe a sua vergonha, a vergonha à qual submeteu sua família, o desprezo do investimento familiar. “Tomar pau” remonta ao ridículo, aos risinhos de canto de boca dos primos, àquela espécie de vingancinha dos concorrentes, dos amiguinhos de balada, das tias fofoqueiras, dos “conhecidos” do condomínio, dos professores do cursinho que o chamaram de “coçador” etc.etc.etc. Tomar pau remete ao pelourinho; à escravidão. E não deixem de se cobrar, senhores irresponsáveis, vestibulares remetem à escravidão. É o chamado “inconsciente coletivo”. Todo mundo se apavora diante de um castigo.
Pior ainda é quando o “de novo?” vem pregado àquele consolo capcioso, de alguém: “Não se preocupe, não. Vestibular é igual ao carnaval, todo ano tem. Se for igual a micareta, melhor ainda. Tem de dois em dois meses. No ano que vem, você tenta de novo”. Aí a ladainha continua: “Agora, vê se para de vagundear e estude de verdade, porque o filho, do amigo do sobrinho, do meu amigo passou de primeira”.
Para um vestibulando, nesta época do ano, o medo absorve a coragem. Perder é mais concreto que ganhar. Para ele, será impossível disputar pau a pau com os melhores da turma, da escola, do país, do mundo. A concorrência assusta mais pela quantidade do que pela qualidade.
O que o salva: “Mostrar-lhe que ele não é um comedor de páginas de apostila, muito menos um assistidor de aulas. É um ser humano que precisa se divertir, comer, dormir, beijar, abraçar...” Conseguir a vaga na faculdade vem com a qualidade e não com a quantidade.

Caro vestibulando... e caro mesmo, PENSE: Tudo mudou para permanecer igual

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Quando eu tinha 18 anos, os professores davam "esporro" em cada aula. Parecia combinado: "Vocês estão no ano do vestibular e não têm consciência, são um bando de alienados que não leem nem bula de remédio. Se não estudarem, não vão passar". Parecia que combinavam. Era um pé no saco" - todo dia, toda aula. Havia um sádico que escrevia quantos dias faltavam para a gente subir no patíbulo e encarar a forca.

Transformavam o tal vestibular em um monstrengo com a boca aberta e os dentes afiados. Muitos amigos "piraram". Deixaram de ser humanos para se tornarem vestibulandos. Eram as vítimas das gozações dos "vagais". Apelidamos os CDF de ursos: brancos, peludos e gordos. Esqueceram de viver.
Professores, coordenadores, diretores, minha mãe, a alma da minha avozinha querida diziam que tínhamos que escolher a profissão, afinal a exerceríamos para o resto da vida. Pensei: "O resto da vida é muito tempo".
Já naquela época, alguns amigos parece que nasceram com o estetoscópio pendurado no pescoço: "Vou fazer medicina, penso nisso desde a barriga da minha mãe". Um deles tentou entrar na UFJF. De tanto decorar a apostila, tornou-se um dos melhores professores de biologia que conheçi. Nunca exerceu a medicina, apesar de ter se formado. Outro formou, jogou o diploma no colo do pai e lhe disse: "Esse diploma é seu". Juntou as trouxas e foi fazer artes cênicas.
Nunca pensei qual profissão gostaria exercer. Em algum momento, pensei em ser diretor de teatro. Depois de um conto publicado pelo Diário Mercantil de JF (o editor era um velho amigo), tive certeza: "Serei escritor". Logo depois, a certeza foi para o espaço, então me vi jornalista. Sempre tive uma imensa dificuldade de obedecer a ordens, nunca daria certo.
Li muito. Ouvia rock pauleira. Os garotos da rua jogavam bola. Eu lia. Meu pai e meu irmão achavam que eu era doido ou gay ou os dois. Para desespero deles, virei objeto de gozação. E eu, cheio de dúvidas, ouvia rock'n Roll. Aí a coisa virou. Certeza! Eu era maconheiro. Veado maconheiro. Como mãe é mãe e vice-versa, a minha dizia que eu era o ser mais inteligente sobre a face da terra. Eu, um adolescente cheio de dúvidas, lia e ouvia rock'roll. Eu era como nitroglicerina: todo mundo sabia que eu explodiria, só sabiam quando. Nem eu.
Resolvi que seria jornalista. E dane-se. Na fila de inscrição, conversei com alguns amigos. Uma deles me disse: "O seu negócio não é escrever? Aprender português a fundo? Então, por que não faz letras? Dei-lhe razão, então, mais uma vez, troquei, para desespero da minha família, que queria um filho "dotô" médico ou padre ou milico. Já disse que não sei obedecer a pessoas. Ah! Esqueci: detesto sangue e vísceras.
Fui parar no curso de letras. Na primeira aula, deu vontade de fugir: "O que diabos eu estava fazendo ali? Dar aulas? Jamais..." Mas, sou teimoso, insisti. E não é que comecei a gostar daquilo! No entanto, vivia grudado na "galera" do jornalismo.
Em 1978, as escolhas dos filhos eram motivadas pelo desejo das famílias de alcançarem "status" (já viu isso?). O negócio era ser médico, advogado ou engenheiro. O resto era "curso espera marido". Nunca ansiei por um marido. A famosa Leila Barbosa me deu uma chance e comecei a dar aulas aos 18 anos no Colégio dos Jesuítas. Não parei mais.
Hoje o leque de opções é tão diversificado, que as profissões mais rentáveis, que darão status, ainda não foram inventadas. É um "crime" pedir a um jovem que escolha o que fará pelo "resto da vida" aos 18 anos. Falta-lhe maturidade. Conheço uma imensidão de jovens que "chutou o pau da barraca" e foi para o mercado de trabalho, sem um diploma universitário.
Pergunte a uma pessoa de 40 anos ou mais, se ela, algum dia, imaginou que carregaria no bolso pelas ruas o próprio telefone que viria um computador acoplado a ele ? Pergunte se ela imaginava que existiria uma tal de internet? E quantas profissões surgiriam a partir dela?
Tenho 60 anos. Envelheço, mas meus alunos, todos os anos, têm 18 anos, por isso acompanho gerações e gerações. Tenho eternos alunos que trazem seus filhos para estudar comigo. Vou-lhe contar um segredo, paciente leitor, que chegou até aqui: "Não sei o que quero fazer" é a opção mais concorrida do vestibular. A maioria dos professores, que dão aula para você sobre determinada matéria, são formados em outras profissões que nada têm a ver com ela..
Em uma profissão tão desvalorizada, tão saturada quanto a minha, sinto-me um vencedor. Vou-lhe contar outro segredo, perdido leitor: "Perdi uma namorada, porque a mãe e o pai dela me consideravam um "professorzinho" sem eira, nem beira.
Sou sim um professor. Não sou médico, nem padre, nem doutor. Em um país em que quase ninguém quer estudar, sou sim um vencedor. Em um primeiro momento, fiquei indignado. Depois, descobri que fizeram para mim algo fantástico: Como já disse, adoro desafios e provocações. Criei, há 28 anos, o Criar Redação, uma referência em Língua Portuguesa para escolas, professores e veículos de comunicação. Durante 20 anos, fui mantenedor do Liceu Van Gogh, até que um AVC me pôs contra a parede, mas não me parou.
Não saberia fazer outra coisa a não ser ensinar e provocar. Alguns alunos me amam; outros me odeiam, mas, de alguma forma, nunca ficaram indiferentes. Nunca fui óbvio.
Meu jovem aluno, não se desespere, o vestibular não é um monstro. Desafie-se. Você só vai atravessar a ponte, ver o mundo por outro prisma. E NADA É PARA SEMPRE.

​O SEM SENTIDO DE TUDO

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(O BOCA DO INFERNO)

Mundo, mundo, vasto mundo das incertezas. Roda mundo, roda pião. Universo do nosso corpo, da nossa mente. Universo de nós. A história não morre, o homem insiste em não mudar. Nada morre, tudo se transforma, como disse Lavoisier que assim seria e como sempre está sendo. Essa é a nossa única certeza, que não responde às nossas incertezas. Para as perguntas mais básicas, não temos respostas viáveis: De onde viemos? Para onde iremos? Deus existe? Existem seres em outros planetas? Há vida após a morte?
Comemos muito mais do que o necessário, se sobrar dinheiro no bolso. As sobras ficarão para quem comerá sem dinheiro. Tomamos porres para esquecer, mas nunca nos esquecemos de tomar porres para esquecer. Aprendemos a destruir em segundos o que levamos séculos para construir. Os EUA têm capacidade para destruir tudo centenas de vezes, mas não basta apenas uma única vez?
Amamos perdidamente, porém somos capazes de matar, se perdido o amor.
Roubamos felizes o que não podemos carregar. Choramos, quando pegos roubando. Muitas vezes desejamos a morte para aliviar nossas dores, contudo ganhamos dinheiro que não compra a cura para elas. Construímos carapaças, armaduras para nos defendermos nas guerras. Elas nos desconstroem, quando o inimigo covardemente se esconde dentro delas.
Rifamos vidas por ódio ou por amor ou por poder ou sem poder mesmo sabendo que sairemos mais vulneráveis. Vamos sofrer. Quem ama, não mata? Mata, mas morre também. Quem mata, ama? A si mesmo também.
Por que elegemos os sabidamente desonestos? Por ideologia? Por razão? Ou só por identificação? Por que sempre choram, se pegos com as calças arriadas, cheias de dinheiro nas mãos? Por que, mesmo assim, são eleitos no próximo pleito?
Por que nos escancaramos em posts na internet, expondo-nos, colocando a nu nossa intimidade, nossa desconstrução? Porém, quando diante da pessoa, ficamos mudos, tímidos? Falar sem ser visto, é mais fácil, vira vício.
O telefone feito para aproximar, é mais usado para distanciar. Gente vive carente de beijos, de abraços, de apertos de mão.
A única certeza é a de que não há certezas. E também não temos certeza do por que não caminhamos cheios de certezas. A velhice é uma certeza, a morte, não. A arte eterniza os homens. A arte traz os mundos na mente, na boca, nos olhos, nos dedos, nas palmas das mãos.

​ESTE ENEM DESMORALIZADO DEVERIA SER ANULADO

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​“Adestrar” alunos com “modelos” de redação é mais velho que andar para frente. Parece novo, mas não passa do velho com botox. Nos anos 80, não havia metodologia para redigir textos, pois a prova de redação ainda era novidade: era comum os cursos “adestrarem” alunos. Nos anos 90, a Fuvest deixou claros seus critérios de correção e revolucionou ao não punir as dissertações em 1ª pes./sing. (saíamos finalmente da ditadura). A Unicamp deixou bem claros os seus critérios, quanto a considerar o texto “autoral”. As escolas abandonaram o decoreba para investirem em “ensino de qualidade”. Nos dias dias de hoje: “Quem ensina, propõe um texto autoral”. Os amantes dos 80: “Quem adestra, enfia modelos goela abaixo do aluno” fazendo-o acreditar em modernidade.

O ENEM prestou um desserviço à educação, retrocedeu aos anos 80 criando o seu “modelito”. Arrastou consigo universidades federais (obrigadas) e boa parte de estaduais e particulares a ENENZAREM. Criou também o “show” do vestibular, além do professor “dador de aula”. Segundo o professor Mário Sérgio Cortella, em livro, o aluno adestrado entra na faculdade, mas raramente permanece, devido à SUA dificuldade de ler, analisar e passar o que depreendeu para o texto. Muitas escolas e cursos impedem seus alunos de publicarem suas redações, não para que outros não os copiem, mas para não se exporem. Na verdade, ficaria descarado que usam a mesma “fórmula mágica” para quaisquer vestibulares. E pior, copiarão uns aos outros. Vestibular é competição? Sim. Robotização é educação? Não. Já levaram Admirável Mundo Novo? Se não leram, deveriam. O diferente revoluciona. Os iguais se tornam medíocres.
Você não verá uma redação de aluno do Criar que copie redações de outros alunos ou do site do INÉPITO. Todos os nossos alunos fazem questão de terem suas redações publicadas, inclusive, que façam parte do nosso material didático. Essa é a conduta seguida pelas 18 UNIDADES DO CRIAR, que comportam mais de 1000 alunos por ano. Não aceitamos, nem incentivamos, nem propomos que nossos alunos copiem modelos prontos. Já viram “Escritores da liberdade?”. Deveriam.
Todos os professores, coordenadores, diretores, que debatem comigo, todos os jornalistas para os quais dei entrevistas, todos os meus alunos sabem que sou um crítico feroz do ENEM, há muito tempo, justamente porque ele fez com que vivêssemos hoje uma “deforma” educacional. Li e vi várias entrevistas de alunos, que se preocuparam em usar o filósofo tal, o sociólogo tal, o filme tal, o livro tal na prova e nada falaram sobre qual tese defenderam e quais os argumentos que utilizaram para defendê-la. Tiram nota 1000? Até tiram. O problema é, passam no vestibular? Boa parte, não.
Deixo claro que minhas opiniões são claras há anos, portanto, para evitar casos de vitimização, “não estou perseguindo essa ou aquela escola”, “esse ou aquele curso”, “essa ou aquela pessoa”. Inclusive, o MEC erra tanto, nos mesmos lugares, que estou ficando repetitivo.
Em 2009, desde que virou porta de entrada para universidades públicas, o ENEM escancarou o que já se sabia há décadas, ao publicar o questionário socioeconômico. Óbvio: os ricos entram nas melhores universidades. Em 2020, o INÉPITO e o MEC passaram de qualquer limite: uma prova “sem viés ideológico (?)”, “uma organização perfeita, para evitar vazamentos (?)”, “O maior ENEM de todos os tempos (?)”. Os humoristas vão perder o emprego e o governo o pouco de credibilidade que ainda lhe resta, se é que lhe resta alguma. É desonroso dizer que “foi fruto de sabotagem”. Inépcia não é sabotagem. Nós fomos sabotados por um ministro incompetente e falastrão.  Infelizmente, para nós, e felizmente, para eles, os candidatos à universidade, em sua maioria, são passivos.
Não há tempo para reverter isso, mas esse ENEM desmoralizado deveria ser anulado.

Análise do discurso

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​(O Boca do Inferno – ninguém vai ler isso)

* Conjunto de elementos de uma situação comunicativa oral: quem fala; a quem fala; o que fala; o ambiente; os argumentos e o vocabulário escolhidos; o gestual; a entonação, inclusive, a forma de olhar.

* Já escrevi sobre tema, mas sempre há novidades: Desqualificar o adversário e se autoelogiar é mais velho que “andar pra frente”. Demonizá-lo transformando qualidades em defeitos, acentuá-los e criar alguns é mais velho que o “rascunho da Bíblia”. Lula (o metalúrgico), Bolsonaro (o tiozão do churrasco) têm o discurso fácil para o povão ignaro entender. Lula (Nunca na história desse país...) e Bolsonaro (Não queremos que o Brasil se torne outra Venezuela) são adeptos dos bordões. São adeptos do messianismo: Salvadores da pátria. Querem fanatizar, manipular seus correligionários e, lógico, jogar para a plateia.

* Os esquerdopatas (apelidar é uma grande jogada) dizem que o Estado é laico, mas eu sou o presidente e eu sou evangélico: (momento Luís XIV – O Estado sou eu). Os evangélicos aplaudiram. O que é “laico” mesmo? O presidente perdeu a compostura, parecendo realmente o tiozão do churrasco: Queria o filho embaixador brasileiro em Washington, afinal ele foi chapeiro nos EUA. Atacou Leonardo de Caprio, que, supostamente, teria financiado ONGs, que queimam a Amazônia, para colocar a culpa no governo. Não daria ouvidos à pirralha Greta Thunberg, ativista que criticou o governo na Conferência sobre o Clima em Madrid. Ridicularizou um repórter, dizendo que ele tinha cara de homossexual. Disse que a mulher do presidente francês era feia. O povão reagiu indignado? Ao contrário, somos campeões em memes.

* Lula, O Filho do Brasil, é também verborrágico, sua oratória é impressionantemente convincente, já fomentou greves, fala de si na 3ª pessoa, mas também luta com a língua portuguesa. Os petistas ligam para isso? Não estão nem aí para o pugilato entre singular e plural. Atacou a imprensa, queria impor um marco regulatório. Os bolsominions (apelidar é uma grande jogada) também afirmam que ela persegue o coitado do Bolsonaro. Ouvi a frase: “Não vão deixar ele fazer nada”. Eles, quem, Cara pálida?

* A federação nacional de Jornalismo publicou um documento: A cada cinco pronunciamentos, em quatro deles o presidente ofende a imprensa. Faz comparações insistentes entre a esquerda e a direita, para se tornar paladino da direita, agora moda, Insiste em demonizar a Venezuela. Esse é o mantra que lhe deu a vitória nas eleições. Insiste em discursos homofóbicos, machistas, racistas, sexistas. Por quê? Porque a sociedade brasileira é, em grande parte, homofóbica, racista, sexista... Ninguém precisa ser gênio para saber que poucas pessoas leem mais de um parágrafo em um texto, seja em blogs ou posts, basta verificar o número de acessos ao Facebook, que está em decadência, porque há textos demais, em uma linguagem fora do alcance de 90% dos internautas.

* Li comentários absurdos de quem só leu a “Manchete”, não leu o texto e também o comentário do comentário. Sobre a votação da Reforma da Previdência, li o comentário de um iluminado sobre a Reforma da Previdência: “Eu não disse que gora vai aparecer um monte de gente “entendida” em Constituição?”. Quando há, são esclarecedores: “Que triste!”; “Muito triste isso!!!”; “o Brasil nunca vai mudar”; “Ninguém faz nada”; “Você é um esquerdopata nojento”; “Cala a boca bolsominion idiota”... Não é à toa que Trump e Bolsonaro ganharam as eleições, usando as “fake news” e governam pelo Twitter. Ambos vivem do absurdo: “No meu governo, o Brasil não virará uma nova Venezuela”. Com suas instituições brasileiras, ainda que capengas, o Brasil não viraria Venezuela nunca.

* O Ministro da Educação escreve errado: “imprecionante” e “paralização” foram dois casos expoentes. Algumas pessoas me perguntaram: “Mas não escreve assim? Eu jurava que era assim. Eu escrevo assim. É estupro? Eu jurava que era “estrupo”. Weintraub (Ministro Educação) trocou Kafka ou por kafta. Quase ninguém percebeu. Mas, quantos parlamentares conhecem Kafka? Publiquei um artigo sobre isso. Sofri ataques. Um: “Ele não tem o direito de Errar?”; outro: “Você nunca errou na vida?”. Pessoas públicas “jogam para a plateia”. Discursando com óculos escuros ou debaixo de um guarda-chuva, desconcertou a imprensa tanto quanto Bolsonaro andando de moto sem capacete ou usando uma camisa falsa da seleção. A rua 25 de março está lotada de gente comprando o falso conscientemente. Você acha que os estudantes vão brigar contra o “ Melhor ENEM de todos os tempos?”. A maioria espera que o outro lute, só quer passar no vestibular.

* A associação do discurso do então secretário de Cultura, Roberto Alvim com o de Joseph Goebbels foi descoberta pela advogada Manuela Lourenção. Assistiu ao vídeo em que Alvim anunciava o Prêmio Nacional das Artes. Nele parafraseia o “chefão” da Propaganda de Hitler. Ela, uma pessoa, entre milhões, descobriu. Alvim será esquecido. Perguntei a algumas pessoas quem era Hitler: disseram que era um “monstro” que matou milhões de pessoas. Goebbel, disseram, deve ser um time de futebol alemão. Amigos, que voltaram a conversar comigo depois do pleito, aplaudiram Alvim. Adorariam também ter arma cintura. São cidadãos de bem.

* Alvim (fala); pacientes (ouvem); ambiente milimetricamente montado para copiar o do alemão; trilha sonora do compositor preferido de Hitler, Richard Wagner; os argumentos parafrasearam os de Goebbels; olhar de um facista resoluto, didático. 

*A embaixada alemã o criticou, afinal a Alemanha vive a luta, sem tréguas, contra grupos neonazisas. Ao discursar, Alvim se esqueceu dos judeus, gente com grande poder financeiro, que perdeu milhares de descendentes na Segunda Guerra Mundial. A ferida ainda está aberta. O presidente precisa do dinheiro deles para se reeleger. Causa espécie que o chefe não saiba das tendências nazistas do subordinado a quem cobriu de elogios. 

*É verdade que Bolsonaro já chamou o nazismo (nacional socialismo) de socialismo (esquerda). Disse que o nazismo é de esquerda. É mole? Bush achava que Al Qaeda era uma banda de rock. Deu no que deu (a Guerra do Golfo). Ao pedir desculpas, Alvim disse que não sabia nada sobre o discurso de Goebbels, era cristão, portanto contrário a massacres. Fleury também era, deu no deu 

MARY

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(O Boca do Inferno - direto dos castelos dos espertos)

O céu caiu. A tempestade afogou a cidade. O tornado varreu as ruas, os bueiros, os telhados, as pessoas. A água colérica não pode ser enjaulada. Correu pelo esgoto tal qual uma égua indomada. Com o punho cerrado, jogou a tampa para o céu, que logo desceu para o inferno. Matou mais um desavisado. Indomável, libertou-se do julgo do cimento. Tudo, que viu, carregou. Roubou vidas sem dó. Olhamos aturdidos, impotentes, indecentes na nossa mísera frente o mundo se desfazer. Nossos sonhos represados derreteram-se.

Mary, a mais brasileira das Mary, tropeçou na beirada do bueiro escondido, armadilha para pegar animais desavisados. Foi arrastada para o abismo. Caiu. Misturou-se aos excrementos. Quem visse, não saberia o que era quem: cocô pura gente; gente puro cocô. O fedor era o mesmo. Sentia fora, o que gestava dentro. Homens são sacos de merda. Onde está o prefeito? Onde está o governador? Encastelados, sem dor.

Mary, a mais brasileira das Mary, viveu uma experiência corporal. Descobriu o mais íntimo das gentes do Brasil, a parte que mais fede, além das atitudes comezinhas cotidianas. Sentiu o que os homens sabem, que o fedor o poder manda esconder debaixo da terra. Quando a natureza põe a nu, boiando, os excrementos, o povo se lembra de protestar. O que há dentro de cada um é exposto pela enxurrada abaixo que inunda ruas, represa-se em lojas e casas. Onde está o presidente da câmara? Onde está o governador? Encastelados, sem pudor.

Mary, a mais brasileira das Mary, viveu uma experiência visceral. Esfregou-se com bucha, água e sabão até esfolar a pele, para substituí-la por qualquer outra coisa. Sentia-se porca, vítima da porcaria humana. O fedor entranhou-se nas narinas. O inferno dos excrementos entranhou-se no cérebro e na alma. Sonhava com banquetes de cocô. Olhando dentro de si, viu que não era diferente. Os homens são sacos de merda. Onde está o presidente? Onde está o seu tutor? Onde está o prefeito? Onde está o governador?

Veio-lhe à mente uma série de porquês:

Bebemos água reciclada. Comemos carne de animais que chafurdam na própria bosta. As cozinhas de bares e restaurantes, dos hotéis e da casa da vovó reaproveitam tudo. O sabão esgota a natureza, quando concebido e também quando deteriorado. Os rios carregam coliformes fecais, que serão usados para aguar as hortaliças que comemos. O papel higiênico apenas macera a merda que será atirada no lixo, que virará chorume, que virará adubo. Será levado pela água, que o depositará no lençol.

Borbulhou na mente dela que ela não passava de um instrumento da natureza que a faz cumprir ciclos. Mesmo prendendo, não há saída, ora ou outra a natureza grita. Grita que está na hora de colocar para fora o que acumulou mastigado, triturado, arremessado no intestino pela boca voraz e os olhos famélicos. Os homens são sacos de merda em produção em profusão.

Mary quis fugir da Mary, quis fugir da adoção, obcecada que estava pela organização, para cair nos braços do Tio Sam. Trabalhou, então, em uma rede de fast-food, em que a ordem do superior era empanturrar os incautos, com o sanduíche requentado da noite anterior. Famélica pela ideia de descumprir a ordem, fugiu dali para trabalhar em uma indústria de refrigerantes. Desconfiava, mas agora tinha certeza, de que não havia laranja nos tanques onde as fábricas armazenavam os refrigerantes feitos com aroma de laranja; não havia uvas nos tanques dos refrigerantes de uva. Caiu a neve devastadora. Cobriu gente, casas, carros. Onde está o prefeito? Onde está o presidente? O está o governador? Onde está o seu mentor? Discursando na Casa Branca encastelados, como Branca de Neve, sem dor, sem dó, nem pudor.

Em um momento de pertencimento, descobriu que a tampa apenas esconde a merda; a neve a disfarça. Descobriu-se um saco de merda do qual, só morta, escapará. Virará adubo. Reciclará a natureza, como disse Lavoisier que assim seria e como sempre está sendo. Descobriu, em um momento de reflexão que não pertencia a si, nem ao Brasil, nem a lugar nenhum. Os homens são os mesmos e a merda é voz, necessidade, atitude, pesadelo de qualquer um. Onde estão mesmo os prefeitos? os vereadores? os governadores? os presidentes?... Encastelados...

ESTRUPO, ESTRUPRO, ESTUPRO

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Introspectiva 2019


ESTRUPO ou ESTRUPRO? me perguntou um aluno de supetão. Respondi: nenhum dois. Outro atropelou gritando: Tá vendo? Não disse? Perdeu a aposta. Brinquei: Perdeu, playboy, a palavra é "estupro". Alguém falou espantado: Tá brincando! Tem certeza teacher? I'm sure. Respondi brincando. Outra voz surgiu do meio da galera. Ele tá de sacanagem: É ESTRUPO. Não é mestre? Saí. 

Deixar as coisas no ar é sempre a melhor forma de ensinar. 2019 foi o ano das dúvidas: o que é fake? O que é news? O que é fake news? Era da pós-verdade? Há verdade? Verdade de quê? De quem? Há imparcialidade? O Brasil é a fake news da fake news. O ESTRUPO? Ou o ESTRUPRO? Estupro sim. Será? 

O “politiquês",  "o juridiquês" e o "economês" são as melhores formas de "estrupar" a população, que nada entende de nenhum dos três? Nunca na história desse país vi tanta gente recitando a Constituição e tantos "entendidos" afirmando: "Agora vai aparecer um monte de gente recitando a Constituição". 2019 foi o ano de excercitar o “achismo” sobre a Constituição Cidadã, do que eu acho que é, se for o que eu penso que é. Ou não? Vale ESTRUPAR ou ESTRUPRAR? Ninguém vai saber mesmo? A Constituição nos estupra? Ou os pastores a usam para estuprar o rebanho?

A palavra "saudade" só existe em português. É certo. Porém, o sentimento, que invoca, pertence a qualquer ser, de qualquer lugar. Em 2019, andamos flertando com o abismo, impelidos pelos adoradores celerados dessa palavra, acrescida das palavras "época" e "ditadura". Nunca se falou tanto em ditadura, em cidadão de "bem", em "valores morais", em bons costumes”. Seja lá o que isso quer dizer. Nunca na história desse país se falou tanto em gente portando armas, assumindo o dever do estado de dar segurança ao cidadão de “bem”. 2019 foi o ano da omissão do estado, do massacre da Constituição e da extrema burrice de uma população que ainda crê na idoneidades das autoridades de plantão. Crê que todo ESTRUPO tem sua razão de ser.

Foi o ano em que saudade e "estrupro" viraram quase a mesma coisa. Aprendi, principalmente, o quanto a palavra "criticar" se tornou tão estúpida e ofensiva. Ou você concorda ou se cala, ou é direita ou é esquerda, senão será expelido do convívio social, profissional e familiar. 2019 foi o ano do "estupro": política não se discute; os discordantes que se mudem; ou se calam ou perdem o emprego ou morrem de bala perdida com endereço certo. Foi o ano da intolerância em todas as suas vertentes. Você pode ser preso por "crimideia".

O estupro é um crime tipificado no Código Penal em seu artigo 213 (Lei 12.015, de 1990 repensada 2009 repensada em 2019). Não se preocupem, desconfiados leitores, porque  perguntei à Wikipedia e ela, muito "abalizada" no assunto, nosso HD externo, me explicou isso. Somos um país governado pela Wikipedia nas artes, nas ciências e na política. Ou pelo Twitter, onde se pode pode "estrupar" ou "estruprar" à vontade. O “estrupador” manda.

Estupro, segundo a definição jurídica, é "constranger alguém mediante violência ou grave ameaça a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que, com ele, se pratique outro ato libidinoso. Será que participar de um partido que não enfia um crucifixo na vagina, como afirmou a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, durante a convenção, foi um recado aos outros que cometem esse crime hediondo? Alguém já denunciou esse absurdo? Onde estão direitos humanos? E dos fazedores de crucifixos para funções religiosas? Será que a ministra já foi "estruprada"? Ela tem obsessão por esse tema. 2019 foi o ano dos absurdos, tanto para os que vestem rosa, quanto para os que vestem azul. Tanto para as pessoas que têm vagina ou querem ter, quanto para os que se dedicaram implantar um estado laico.

Elencarei alguns crimes considerados hediondos (Lei 8.072 -  2011):  1) homicídio qualificado; 2) Latrocínio; 3) Extorsão qualificada pela morte; 4) Estupro; 5) Estupro de vulnerável; 6) Epidemia com resultado de morte; 7) Genocidio;